sábado, 22 de junho de 2013

Arquivando



 
Sabe aqueles dias que a única coisa que você precisa é um abraço?
Um carinho simples, porem de grande magnitude, mas difícil de se obter quando se está sozinha.
Tento obter esse carinho através de lembranças, recordações, sorrisos espalhados de momentos vividos, mas difícil encontrar o calor do corpo que aquecia minha alma, meu coração...
Cada dia que passa as lembranças ficam mais distantes, os momentos desfocados, tornando-se pequenos flashes  de partes mais vibrantes.
Ao sair, junto ao vento, sinto aromas de dias felizes, perfumes conhecidos que pertencem a um abraço apertado, lugares que permanecem e consigo guardam segredos. Segredos de encontros, reencontros, segredos de palavras que não podem mais ser ditas, de gestos e carinhos que não podem mais ser repetidos. Segredos guardados na memória, no coração...
Tudo que queria hoje era poder retirar desse imenso baú de recordações, um momento, um simples e sutil momento, e poder revivê-lo.
Realmente, viver cercado de todos e sentir-se sozinho é uma dor infinita, uma dor que não se consegue desviar, uma dor que te limita a encostar-se ao leito e sonhar de olhos abertos, procurando encontrar a parte do caminho que você se desviou.
Dor que dilacera que consome, que lhe esmaga por dentro transformando em lágrimas que espremidas no coração brotam aos olhos derramando-se pela face sem motivo aparente.
Fogo que se apaga... vento forte que sopra... e aquele ultimo carvãozinho  que luta por manter a chama acesa vai se esfarelando...  pequenas fagulhas se espalham com o vento indo ao longe buscando algo que jamais encontrará.
Acho que chegou o momento de arquivar tudo aquilo que vivi. Assim como fotos antigas, armazenar num álbum, carinhosamente, deita-lo numa caixa aveludada e pousar-lhe na parte superior do armário.  Assim, deixar o tempo passar e somente quando a mente começar a se anuviar pela idade avançada e houver necessidade de buscarmos algo que, mesmo por alguns segundos, faça-nos sorrir, faça com que lágrimas de saudade feliz escorram pela pele marcada, desaguando no lábio entre aberto em soluços de um momento que não volta mais.
Pessoas dizem que todos somos felizes, que a felicidade está dentro de nós, e isso é verdade, porem essa felicidade só é plena quando se consegue vive-la integralmente, conseguindo dividi-la, ou transmitir a alguém que necessite. Mas quando tua felicidade é motivo para deixar-te só , pois acreditam que não necessita de ninguém, pois já tem o suficiente, essa felicidade fica... sufoca... se apaga... se transforma...
Acreditei um dia que me bastava fazer por alguém, mas descobri ser egoísta, pois o que faço por outro não me é suficiente.
Hoje, eu aqui... desejando somente um instante, ver de perto o brilho de um olhar, sentir o calor de um abraço e brindar com um sorriso largo que deu lugar ao lábio inexpressivo que se move somente para transmitir o que lhe é solicitado, sem motivação para se abrir ao mundo novamente.
Sinto... sinto muito... Pois prometi nunca desistir, na verdade não é isso que estou fazendo, estou apenas guardando tudo num lugar onde a dor possa ser menor, onde o tempo não seja o castigo, onde o que passou possa ser apenas a felicidade e a lembrança... apenas lembrança...



sábado, 8 de junho de 2013

A DOR QUE DÓI MAIS - Martha Medeiros

 
Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, que o tempo não perdoa. Dóem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o escritório e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua pintando o cabelo de vermelho. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango assado, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua surfando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber se ele está com outra, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ela está feliz, e ao mesmo tempo querer. É não querer saber se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais saber de quem se ama, e ainda assim, doer.